O que é Economia Comportamental e seu impacto nos Negócios
- RHEIS Consulting

- 21 de ago. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
Economia Comportamental é uma área que une economia e psicologia para entender por que as pessoas tomam decisões financeiras e de consumo de forma não totalmente racional, influenciadas por emoções, vieses cognitivos, hábitos e contexto social, em vez de apenas lógica e maximização de lucros, como na economia tradicional. Ela estuda os fatores humanos (sociais, cognitivos, emocionais) que afetam as escolhas, oferecendo uma visão mais realista do comportamento humano em relação ao dinheiro e ao consumo.
Surgimento e desenvolvimento da Economia Comportamental
A Economia Comportamental surgiu para integrar a psicologia à economia e criar modelos mais realistas de tomada de decisão. A mudança começou nos anos 1950, com Herbert Simon e o conceito de racionalidade limitada, mostrando que nossas capacidades cognitivas impedem decisões totalmente racionais.
A consolidação veio nos anos 1970, com a Teoria da Perspectiva, de Daniel Kahneman e Amos Tversky, e os estudos de Richard Thaler, que evidenciaram falhas ignoradas pela economia tradicional.
O reconhecimento acadêmico incluiu três Prêmios Nobel ligados à área: Herbert Simon (1978), Daniel Kahneman (2002) e Robert Shiller (2013). Esses marcos consolidaram a Economia Comportamental como fundamental para entender o comportamento econômico real.
A Neuroeconomia
À medida que a Economia Comportamental avançou na compreensão de como emoções e vieses influenciam decisões, surgiu a necessidade de investigar o que acontece no cérebro durante esse processo. É nesse contexto que se desenvolve a Neuroeconomia, integrando Economia Comportamental, Psicologia Cognitiva e Neurociência para aprofundar o estudo da tomada de decisão.
A Neuroeconomia investiga as bases neurobiológicas de escolhas como risco, autocontrole e recompensa. Pesquisadores como Paul Glimcher e Ernest Fehr demonstram como esse campo contribui para testar e refinar modelos econômicos a partir das neurociências.
Desde os anos 1990, seu crescimento tem sido impulsionado por avanços tecnológicos. Modelos como a Aprendizagem por Reforço, associada à dopamina, ajudam a explicar como o cérebro processa recompensas e erros de previsão. Ainda assim, a biologia, por si só, não explica todo o comportamento, sendo essencial considerar o contexto social e as interações humanas.
Finanças Comportamentais
Enquanto a Neuroeconomia aprofunda as bases biológicas da decisão, as Finanças Comportamentais representam a aplicação prática da Economia Comportamental no campo financeiro.
Esse campo estuda como razão, emoção e psicologia influenciam decisões financeiras. Ele surgiu justamente porque os modelos tradicionais, baseados apenas na racionalidade, não conseguiam explicar por que tantas pessoas gastam mais do que ganham, acumulam dívidas ou agem por impulso, mesmo sabendo o que seria o correto.
As Finanças Comportamentais analisam o desequilíbrio entre razão e emoção, considerando crenças, influências sociais e padrões de comportamento.
Entre os principais vieses estão:
Efeito manada – seguir a maioria sem base clara;
Excesso de confiança – superestimar a própria capacidade;
Viés da confirmação – buscar apenas informações que reforçam crenças;
Aversão à perda – evitar prejuízos mesmo quando insistir gera perdas maiores;
Efeito dotação – supervalorizar o que se possui;
Ancoragem – usar referências irrelevantes;
Contabilidade mental – separar o dinheiro em “caixinhas”, prejudicando a gestão.
Compreender esses padrões permite tomar decisões mais conscientes, ajustar estratégias e desenvolver uma relação mais equilibrada com o dinheiro.
Por que estudar Economia Comportamental?
Nossas decisões são constantemente influenciadas por fatores externos e emocionais. Buscamos agilidade, sofremos com ansiedade, evitamos perdas, superestimamos nossas capacidades, usamos referências, seguimos preferências, somos moldados pelo contexto, buscamos soluções “boas o bastante” e temos dificuldade em equilibrar curto e longo prazo.
Esses fatores estão no cotidiano: compras por impulso, trocas frequentes de produtos para seguir tendências e escolhas feitas mais por desejo do que por necessidade.
Um exemplo clássico é a escolha entre ganhar R$50 com certeza ou ter 50% de chance de ganhar R$100. A maioria prefere o valor garantido, decisão fortemente influenciada por medo da perda, aversão ao risco e busca por segurança.
Estudar Economia Comportamental ajuda a compreender esses padrões automáticos e emocionais, permitindo decisões mais conscientes, tanto financeiras quanto pessoais.
O que a Economia Comportamental tem a ver com o meu negócio?
Entender o comportamento humano deixou de ser diferencial e passou a ser necessidade para empresas que buscam crescimento sustentável. A Economia Comportamental explica como as pessoas tomam decisões, muitas vezes influenciadas por vieses cognitivos e emoções.
Nos negócios, esse conhecimento ajuda a compreender o que motiva o cliente, como influenciar decisões de compra e como ajustar produtos, serviços e comunicação para melhorar resultados. Pequenas mudanças em design, preço ou linguagem podem impactar marca, fidelização e lucro.
Ao aplicar esses princípios, empresas conseguem prever comportamentos, adaptar estratégias e ganhar vantagem competitiva.
1. Vieses Cognitivos nas Estratégias de Negócio
Os vieses decisórios são atalhos mentais que afetam como avaliamos opções. Entendê-los permite criar abordagens mais eficazes em marketing, vendas e experiência do cliente.
Ancoragem: A primeira informação recebida molda as decisões seguintes. Mostrar um preço elevado antes de um desconto gera maior percepção de vantagem. Use preços de referência altos para valorizar suas ofertas.
Aversão à perda: As pessoas preferem evitar perdas do que conquistar ganhos equivalentes. Destaque o que o cliente pode perder ao não agir (descontos por tempo limitado, benefícios exclusivos).
Viés de confirmação: Consumidores buscam informações que reforcem crenças pré-existentes. Alinhe campanhas de marketing aos valores do seu público para criar conexão emocional.
2. Teoria da Perspectiva
Essa teoria mostra que avaliamos ganhos e perdas com base em um ponto de referência subjetivo. Um desconto de R$50 pode parecer mais atraente se apresentado como “economia significativa”, mesmo com o mesmo valor absoluto.
Aplicações práticas:
Precificação: Destaque benefícios ou economia percebida em relação a produtos concorrentes.
Comunicação: Use experiências e expectativas do cliente como referência na construção da mensagem.
3. O Poder das Opções Padrão
As opções padrão (pré-selecionadas) influenciam escolhas ao explorar a inércia e a percepção de endosso.
Inércia: A maioria evita o esforço extra. Exemplo: uma assinatura mensal ativada por padrão facilita a conversão.
Endosso percebido: A opção destacada como “mais recomendada” é percebida como superior. Plataformas de streaming que sinalizam o plano “mais popular”.
Aplicação nos negócios: Configure padrões amigáveis e estrategicamente pensados para orientar decisões do cliente.
4. Heurísticas: Atalhos da Mente
Heurísticas são regras simples usadas para tomar decisões rapidamente. Embora úteis, elas geram distorções cognitivas.
Heurística da disponibilidade: Julgar com base no que é mais fácil lembrar (ex.: notícias recentes).
Representatividade: Classificar situações com base em estereótipos, ignorando probabilidades reais.
Ancoragem: Usar a primeira informação recebida como base de comparação.
Aplicação: Empresas que reconhecem esses atalhos podem ajustar comunicações, produtos e abordagens comerciais para tornar suas propostas mais convincentes.
5. Estratégias de Precificação Baseadas em Psicologia
A percepção de valor pode ser moldada com estratégias de precificação bem planejadas:
Efeito de ancoragem: Mostre um preço alto inicialmente para fazer o preço real parecer mais atrativo.
Efeito de enquadramento: A forma como você apresenta o desconto impacta na decisão. Exemplo: “Economize R$50” soa melhor do que “20% de desconto”.
Essas estratégias não alteram o valor real, mas mudam a percepção do consumidor — e isso influencia diretamente as vendas.
6. Marketing e Publicidade Comportamental
Aplicar os princípios da Economia Comportamental em marketing torna suas campanhas mais persuasivas e eficazes.
Prova social: Mostrar que outras pessoas confiam em sua marca gera segurança. Exemplo: depoimentos, avaliações, número de usuários.
Escassez: Criar a sensação de oferta limitada aumenta o valor percebido. Exemplo: “Últimas unidades” ou “Oferta válida por 24h”.
Esses gatilhos ativam emoções como urgência e pertencimento, que influenciam decisões de compra com mais força do que argumentos racionais.
Conclusão
Integrar a Economia Comportamental às estratégias de negócio cria grandes oportunidades, mas também exige responsabilidade ética. O principal risco está no uso indevido dos vieses, manipulando ou enganando o consumidor.
Princípios como escassez e ancoragem devem ser aplicados com transparência, visando construir confiança — não urgência artificial. Da mesma forma, o uso de dados comportamentais precisa respeitar a privacidade e os direitos do cliente.
Outro desafio é considerar diferenças culturais, sociais e econômicas, já que estratégias eficazes em um contexto podem falhar em outro. Apesar disso, quando aplicada de forma ética, a Economia Comportamental se torna uma ferramenta poderosa para melhorar resultados e fortalecer relações duradouras baseadas em confiança e integridade.
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Podcast

*A Aprendizagem por Reforço na psicologia, baseada no behaviorismo, é um processo de aprendizagem onde um comportamento se torna mais provável de ocorrer novamente devido às suas consequências, através do reforço positivo (adição de algo bom) ou reforço negativo (remoção de algo ruim/aversivo). É fundamental para entender como hábitos são formados, modificação comportamental (ABA) e como animais e humanos aprendem por tentativa e erro, buscando recompensas e evitando punições, sendo essencial para motivação e desenvolvimento de novos comportamentos.
Sugestão de Leitura:
Rápido e devagar: Duas formas de pensar (Daniel Kahneman);
Ruído: Uma falha no julgamento humano (Daniel Kahneman, Olivier Sibony, Cass R. Sunstein);
Misbehaving: A construção da economia comportamental (Richard Thaler);
Comportamento Inadequado: a Construção da Economia Comportamental (Richard H. Thaler);
Nudge: Como tomar melhores decisões (Richard H. Thaler, Cass R. Sunstein);
A psicologia do dinheiro: Descubra como as emoções influenciam nossas escolhas financeiras e aprenda a tomar decisões mais inteligentes (Dan Ariely, Jeff Kreisler);
A mente acima do dinheiro: o impacto das emoções em sua vida financeira (Brad Klontz, Ted Klontz);
A psicologia financeira: lições atemporais sobre fortuna, ganância e felicidade (Morgan Housel);
A lógica do consumo - Verdades e mentiras sobre por que compramos (Martin Lindstrom).


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